Artes e digitalização · Corona

Cantando e cantando…

Cantando e cantando…


Ela está empolgadíssima. À noite ela vai cantar como nunca. No banheiro.
Assim… de uma forma tão natural, numa temperatura ideal, sem platéia fazendo barulho. Livre de tudo. Ou melhor, só com uma toalha jogada no corpo para criar um clima,né?
E vai soltar a voz cantando desde “O sole mio” até “O dia em que a Terra parou”de Raul Seixas. 
Com a porta e janela do banheiro fechadas não haverá tantos problemas com os vizinhos. Só um pouco. 
E continuando a montar o cenário: o vaporzinho bem forte fazendo de conta que é gelo seco. O sabonete espetado em uma antena de carro à moda antiga. Nas orelhas um par de brincos feitos com protetores de ouvido para natacão e na cabeça uma touca de fiapos plásticos imitando uma cabeleira muito louca. Para alguns. Para outros não. Depende.
Mas todas estas adaptações são porque ela tem um temperamento muito flexível. Sempre se adapta a tudo, inclusive às ordens imperiais que vieram com força total para acabar com a vida dos músicos, artistas e muitos, muitos outros. De várias categorias e credos. Credo!
Mas ela não é única. As pessoas nestes tempos de lockdown se transformaram quase todas em cantores de chuveiro. Nossa! Imagine todos num prédio inteiro de 10 andares usando e cantando no banheiro ao mesmo tempo…. E o síndico orquestrando. Kkkk….
E serão vários meses de shows. Não como estes digitais que a gente vê nas telas do computador com muitos de várias partes do mundo cantando ao mesmo tempo. Não!
As apresentações dos cantores de chuveiro só terão áudios. Não sei se afinados. Mas serão mais intimistas e irão levantar o ego de muitos deles. E tudo será muito bom. Pra ninguém cair em depressão.
Agora, ela então ficará radiante com seus espetáculos. Irá ficar famosa, com certeza. Pelo menos na imaginação dela. Que bom!