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O morador do pier

O morador do pier

Hoje ele está cansado. Mas é domingo. E ele precisa estar bem acordado. Apesar de ontem, sábado, ter sido um dia muito agitado. 
Ele era um molusco. Meio gozado, danado e pelado, sem pelo mesmo. Também grudento e rabugento. Não era um polvo porque tinha poucos braços. Mas era lindão e zoiudo. Um olho só. Mas que enxergava melhor que dois. 
E por ser diferente dos outros moluscos resolveu fazer sua vida diferente também. 
E encontrou seu cantinho nas profundezas das toras de um pier. E nelas se agarrou e ficou.
Ninguém sabia de sua existência porque ele ficava na dele. Mas espiava tudo. E tudo era muito interessante. 
E ontem, à tarde, chegaram várias famílias para fazer piquenique. E tinha comida de sobra. Com isto ele acabou comendo muito bem todos os restinhos que caiam lá de cima. Estava tudo delicioso! 
Mais tarde vieram muitos casais, amigos, cachorros e “de tudo um pouco”. E foram várias as comemorações. Aniversários, bodas de prata, batismo e até gente jogando o pozinho do morto incinerado no mar. Dá sorte! Não sei pra quem! Bom… aí depende… é que …. deixa pra lá. E tudo isto foi até tarde da noite. 
Quando ele já estava pegando no sono, eis que surgiu um casalzinho de namorados muito apaixonados e muito dispostos. E foi um nheque , nheque do píer a noite inteira. E ele se agarrou firme numa das toras do píer. Cruzes! Houve momentos em que achou que tudo ia desmontar. Mas deu tudo certo. Pra ele pelo menos. Ah! Pro casalzinho mais ainda. 
E agora que era domingo estava bocejando o tempo todo. Mas não podia fraquejar. Domingo era o dia em que apareciam muitas gatinhas de saia e ele tinha uma visão panorâmica maravilhosa de onde estava. Tudo é uma questão de ponto de vista. Humm… 
Acorda Molusco! A festa continua…