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A tampa da maça

A tampa da maça


Tive uma amiga chamada Lori. Este nome me soava muito suave. Mas gostava mais ainda da dona do nome. Era uma amizade agradável que só durou todo o ano em que estudei no mesmo colégio que ela. 
Ela era quietinha, ruiva, com algumas sardas no nariz, olhos pequenos e escuros. E tinha uma linda expressão de olhar. 
Ela era uma menina que tinha uma condição de vida mais simples que a minha. Eu notava algumas diferenças entre eu e ela sob estes aspectos materiais. 
Eu não era uma menina rica. Minha família, de muito filhos, tinha certos confortos, mas tudo o que tínhamos ou comprávamos era bem medido. 
Mas não era só isto. É que a vida naquele então era muito diferente também. Estes valores materiais tinham outra forma de serem avaliados. Hoje tudo é bem diferente.
Bem, mas o fato é que eu podia levar maça de lanche para a escola. Imagine! Hoje isto não significa nada. Mas, notava que ela, embora gostasse muito de maça, não podia se dar ao “luxo” de levar maça de lanche. 
Total que quando chegava nos recreios, eu abria minha mala de escola, e pegava a maça que eu havia jogado de qualquer jeito lá dentro. E eu oferecia para Lori. Ela muito discreta dava apenas uma pequena mordida. Mordiscava na realidade. E eu atribuía a este gesto dela à sua timidez. 
Mas percebi depois de algumas vezes que ela passava muita vontade de comer mais da maça. Ela só mordiscava por timidez e educação. 
Fiquei encucada com aquilo e logo comecei a pensar em resolver a questão. Foi quando lembrei dos guardanapos grossos e adamascados de minha mãe. Até duros de tão grossos. Ainda bem que hoje temos os tais papéis “filme”. Teriam sido de muita serventia naquela ocasião. E comecei, a cada vez que ia levar maça para a escola, a cortar apenas uma tampa dela. Quase a metade. Mas as mantinha presas por um pedacinho da casca. 
Depois tomava o cuidado p/ embrulhar tudo. Aí usava o guardanapo em que fazia um nó bem forte. A maça se mantinha apetitosa ainda que algumas horas tivessem passado até a hora do recreio. 
E Lori ficava muito contente de ganhar a tampa da maça. E nos recreios passamos a desfrutar muito mais da nossa maça e de nossa amizade.