Artwork · Colagens

Duas cabeças, dois destinos

Duas cabeças, duas sentenças

Eram vizinhos de parede. Suas casas eram geminadas. Mas tinham ideias e maneiras de pensar e de ser muito diferentes. E isto fazia toda a diferença. Um era “azarão”e o outro era “sortudo”.
E assim era porque, o mesmo sol que brilhava no céu, era quadrado para um e redondo para o outro. 
O mesmo vento que batia, era um tufão para um, mas uma brisa suave e perfumada para o outro. 
A mesma chuva que caía no meio do caminho quando os dois andavam juntos, era motivo de reação mal humorada e uma forte gripe para um. E acabava perdendo inclusive as roupas molhadas pela chuva porque, depois de secas, encolhiam. Que azar!
Mas para o outro as roupas molhadas eram motivo de alegria porque o ajudavam a economizar o programa de pré-lavagem da máquina de lavar roupas. 
Então quando surgiu um concurso, cujo prêmio era um tesouro em forma de moedas de ouro, a participação dos dois ocorreu de forma muito diferente também. 
No caminho em direção ao tesouro, ao azarão tudo acontecia fora dos conformes. Só encontrava paus, pedras, cruzes, cobras, arame farpado. E até uma montanha muito alta, pedregosa e escorregadia. Teve que arranjar uma escada de cordas para subir e outra para descer. Mas depois do outro lado dela o caminho continuou igual de difícil.
Já o sortudo encontrava alguns obstáculos também. Mas eram colinas, alguns galhos e algumas pedras que pareciam até serem lapidadas. Enfim tudo eram coisas das quais ele facil/e desviava e seguia em frente. Era um contorcionista!
Total que, quando o azarão foi finalmente tocar nas moedas, estas derreteram a olhos vistos pelo sol inclemente. E escorreram pela encosta, chegaram a um rio próximo e de lá seguiram junto com ele para mais tarde serem garimpadas. Que azar! 
Já o sortudo quando tocou as moedas tornou-se dourado por inteiro. E o que tocava virava ouro. Então foi logo muito admirado e tornou-se motivo de samba enredo de escola de samba: – “O novo Patinhas”. E todo dourado desfilou feliz no maior carro alegórico da Escola de Samba que o homenageava.
Assim é a vida: duas cabeças diferentes colhem destinos diferentes mesmo que os eventos sejam iguais.